domingo, 4 de outubro de 2009

Rabisco

Egon Schiele, Death and Girl, 1915.

Rabisco as letras

Do teu nome

Em meu peito.

Elejo o teu nome

Como o mais bonito

Repito

Para não esquecer

Em todos

Os tons e cores.

Teu nome

É eco de esperança

Em minha alma

Acalma

Meu sono.

Teu nome

Ressoa

Como o mais perfeito

Dos amores.

Dead Smile



Seu sorriso sem graça
Enche os espaços da casa
Asa oca de ave,
Eterno entrave para
Minha utopia.

Seu sorriso sem graça
Poeira velha com
Cheiro de traça,
Amor maduro que
Apodreceu.

Seu sorriso sem graça
Morreu
Em minha boca.

Ocas mãos perdidas
Num beijo
Com gosto de breu.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Ninho



Nesses tempos onde o tempo é areia escorrendo em uma velha ampulheta, nada mais me conforta, me acomoda e me aconchega que a presença refletida de mim mesma em minha casa. Meus cantinhos traduzem o meu silêncio, minhas vontades, minhas manias.Os quadrados da casa, da alma e da vida, se ajustam, se arrumam, se organizam. Tudo silencia o furor de um cansaço que o vento aprisiona em mim. Minha cama explica o tom sutil das florezinhas miúdas de um lençol estampado. Claro, claro que foi presente. As estampas não me caem bem. Lençóis lisos traduzem a certeza do que se sabe, ampliam o tamanho da cama, deixam o meu sono mais tranqüilo. Sou eu toda de uniformidades, de alinhos, de linhas retas e milimetricamente medidas e arrumadas. Minha casa diz e repete pra mim quem eu sou e eu me sinto forte, segura. Uma xícara de café fresco, um chinelo velho e tempo gasto com bobagens ao computador. Acordar cedo e brincar com o lençol, sendo surpreendida pela luminosidade que entra pelas frestas da janela. A moça da pamonha com sua toada insistente e as notícias do jornal que se repetem, mas não perdem o cheiro de novidade. Levantar e dar de cara com as estantes, imóveis, mas sorrindo com os dentes abertos, cheinho de livros. Tocar em cada um deles. Ouvir uma música de Hendel enquanto saboreio um café e um pão quentinho, recheado com sabor de leve brisa. E nesses momentos simples e tão únicos é que se percebe e se sente o que é realmente estar em paz.


quarta-feira, 1 de julho de 2009

Eu sou poeta e não aprendi a amar

Primeiro de Julho
Eu vejo que aprendi
O quanto te ensinei
E é nos teus braços que ele vai saber
Não há por que voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez
O que fazes sem pensar aprendeste do olhar
E das palavras que guardei pra ti
Ninguém sabia e nínguém viu...
Que eu estava ao teu lado então...

Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher

Minha mãe e minha filha,Minha irmã, minha menina

Mas sou minha, só minha e não de quem quiser

Sou Deus, tua Deusa, meu amor....

Carta ao senhor A.


Você fala de mim com uma precisão tão absoluta que eu, esperançosa que sou, às vezes chego a acreditar que você me entende. Bobeira minha. Ninguém me entende, nem eu mesma. Mas às vezes você me desentende e isso todo mundo sempre faz. Você me põe para pensar. Eu consigo escutar as suas palavras trazidas pelo vento em minha direção. Consigo me comover com suas dores e com suas lembranças, consigo uma ínfima aproximação e, nesses curtos momentos, percebo que sou ligeiramente feliz.

Eu sou alguém que se perdeu de si mesma, confusa entre personagens que eu mesma inventei. Eles me ferem tortuosamente, mas eu me submeto. Ser o que não sou é tão fácil. Ser o que não sou não dói. Não quero me expor, não posso me expor, tenho medo de me expor. Seguro firmemente as grades de me separam deste mundo, o seu. Não é que você não mereça. Não é que você não possa. Eu é que jamais conseguiria chegar até ai.

Tua presença me alivia. Bom ouvir a tua voz como quem acabou de lembrar que tem que tomar um remédio. E dorme tranqüilo, não haverá dores nas próximas oito horas. Pelo menos. O que nos une é diferente de qualquer entendimento das pessoas. Não é namoro, não é sexo, não paixão, não é amor, nada nominável. Estranha mania que o mundo tem de por nome a tudo, de rotular e estabelecer regras para qualquer tipo de relação entre duas pessoas. Não nos encaixamos. Até que tentamos, mas não dá. É um afeto, um encontro, uma coisa boa que persiste. Uma coisa que eu quero que persista. Sem maiores pretensões.

sábado, 27 de junho de 2009

Poeira


Ela não é forte coisa nenhuma... É apenas uma menina grande brincando de casinha. Medo de não fazer certo, medo de as coisas darem errado, medo de não chegar no horário. Grandes medos para uma grande menina. Arruma as coisinhas miúdas no guarda-roupa enquanto ensaia uma arrumação na vida. Lembra de marcar os médicos, lembra de ir à costureira e tenta lembrar de não esquecer nada. Forra a cama com o primor de quem não dorme ali. Sacode a poeira perdida e incrustada na alma e na vida. A casa é enorme, o mundo também.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Shelly



Para você toda a alegria e esperança,
de dias verdinhos e suaves,
de brisas quentes assanhando teus cabelos,
de riso perdidos e intermináveis
quebrando o silencio de dias rotineiros.

Para você todo o ar festeiro,
todo o céu e mar
cantigas de ninar
para você acordar e contemplar
o sabor do mundo inteiro

Para você meu verso
o mais verdadeiro,
cheiro suave de terra,
depois de longa tempestade.

Para você o inefável
traço de afeto e sentimento,
meu maior presente...

Para você a minha eterna amizade!