terça-feira, 6 de abril de 2010

Enquanto existas

Memories, John White Alexander, 1903.




Ontem fui ver o mar. Noite já tinha caído, uma insanidade. Tem sido de insanidades a vida. Precisava. Almejava apoderar-me de um pouco daquela força para conseguir deitar a cabeça no travesseiro. Precisava ver o ir e vir das ondas nas pedras fortes, o cheiro de maresia por entre as narinas, a natureza imperiosa me dizendo sim, as coisas podem ser diferentes. A natureza me dizendo que eu sou essencialmente forte, de uma força desconhecida, embora a minha fragilidade seja uma daquelas ondas a se desmanchar na areia. Em minha cabeça pairam ideias opostas que se enovelam. Existe uma áurea de racionalidade que sopra como vento forte, que ecoa sobre as muitas vozes que estão ao meu redor. Existe um amor forte que pulsa. E é verdade. E é inteiro. E me toma toda, como as ondas tomam e derrubam o que estiver pela frente. Preciso aprender a conviver com ele. Ainda não sei. Talvez nunca saiba. Talvez acorde um dia e de repente aprenda. Queria que a minha palavra pudesse ter o peso do que sinto. Não tem. Existem palavras que se perdem sozinhas por aqui, sem formar frases. Angústia é a mais forte delas. E não deixa as outras, tão lindas, saírem. Hoje não há poesia. Ainda bem que a poesia é respirável. Que me cerco dela como quem precisa de ar. E é nas palavras da minha amiga Priscila Fernandes, que o meu coração hoje fala:


Enquanto existas


Enquanto existas,
enquanto meu olhar
te busque detrás das portas,

detrás das coisas.


Enquanto nada me encha o peito
senão a tua imagem, e haja
a remota possibilidade
de que estejas em algum lugar,
sob uma luz qualquer...


Enquanto eu pressinta que és

e que te chamas
assim, com esse nome teu
de força,
e sejas também chuva
a me encharcar.


Seguirei assim, como venho sendo,
como serei agora e sempre:
silenciosamente afogada em teus cílios,
e sob esse amor
que explode e não estilhaça.



Priscila Fernandes

sábado, 3 de abril de 2010

Water serpents I, Gustave Klimt, 1907.



Chove muito e faz calor. Em casa a luz é rara, breu na sala e na alma. Eu penso em você. Eu lembro, eu sinto, eu choro. Equilibro-me por entre uma razão que ecoa aos quatro ventos e na boca do mundo e entre a falta doída que a tua presença me traz. Respeito, entendo, executo. Ficar longe. Não escrever cartas, não mandar mensagens, não ligar, não...As negativas plausíveis se contradizem. Não pensar em você? Isso não dá para fazer. Seu cheiro ecoa na velha camisola atrás da porta. Enebria meu quarto, meu corpo, meus poros. Meu corpo queima de saudade, minha alma clama por um acontecimento qualquer, uma migalha, um resquício de sentir que me dê esperança. A esperança é uma deusa enganadora, eu sei. Para aplacar o que sinto eu me rendo ao engano, ao erro, ao desvelo...Jogo as razões no lixo. Repito o velho desatino. Antevejo a dor se instaurar e sonho com o alívio da volta. Como um drogadito que pede a última dose, ainda que esta lhe seja fatal. Não sei bem se esta sou eu, nem sei mais quem sou perdida por entre os espelhos tantos. Tonta, vivo das lembranças. Remexo as gavetas, releio as cartas, pairo sobre a tua figura de menina numa foto amarelada tirada na antiga casa. Tua figura de menina que construí mulher, que vi nascer, que alimentei como mãe e reescrevi como filha. E é só de recordações a vida. Na caixa do passado, desbotada pelo tempo dos anos, dos sétimos anos, eu encontro um pouco de alento. E umas palavras perdidas, manchadas de sonho que aqui agora deposito:



Agora tudo o que mais me fascina

É lembrar-me do teu corpo de menina

Inteiro, sereno, perfeito e voraz...

Lembrar-me de tua pele nua, branca

Minha, sua....

Do teu corpo inteiro e de todo o desejo

Que a tua boca me traz

Lembrar-me dos beijos roubados,

Abraços trocados, carícias profundas...

Sentir o gosto do teu sal em minha boca

E toda a paz que meu peito inunda.

Poema escrito em agosto de 2005.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

"Como você pode pedir, pra eu falar do nosso amor que foi tão forte e ainda é...mas cada um se foi..." Milton Nascimento


O branco do teu corpo
No enlace do meu abraço
reforça o severo laço
que aprisiona o nosso amor


O branco do teu corpo
No breu do meu abraço
alivia o cansaço
das noites passadas em claro


O branco do teu corpo
Meu corpo e alma invade
Revela o contraste
entre a presença e saudade


O branco do teu corpo gravado para sempre em
minha carne.





terça-feira, 23 de março de 2010

Passarinho ao contrário

Passarinho ao contrário, fotografia retirada da internet.


Eu me comovo a cada dia com o teu amor. Com o teu braço forte a estender-me a mão. Com a tua proteção, teu desvelo, teu carinho. Tens assim a delicadeza de um passarinho e a força de um samurai. És meu irmão, amigo, filho, pai. És um escudo bravio onde me escondo de mim e do mundo. E parece assim tão absurdo, imaginar que um dia a distância era tanta e tão pouca. Mas não tínhamos olhos para ver-nos. E vida, louca que é, tratou de pôr umas vírgulas na história. Não sei bem se estava certa, a vida. Sei apenas que a tua presença me convida a permanecer de pé, por mais difícil que seja a jornada. Teu olhar me diz mil coisas em silêncio, coisas que tento entender e não consigo. E na força do que chamo de amigo, eu encontro amor que nunca vi igual. E deixa um riso frouxo na cara, saber que se é assim amada. Não importa que nome tenha ou onde esteja, a imponência de sua nobreza, me diz que é de verdade e nunca acaba. Para sempre um dia pareceu-me impossível, hoje é certeza plena. Quem de longe vê, entende, sente, questiona. Este amor que vento nenhum desmorona, pois é de rocha, de vida, de morte. É de semente, de vento, de sul e de norte. É de Clara, claridade. De filha, de mãe, de tenra idade. Este amor é nosso, transborda por todos os cantos e tem o nome da eternidade.

domingo, 7 de março de 2010

Para você, minha amiga, eterna flor a perfumar os meus dias. O meu agradecimento em versos pela tua escuta e pela adorável companhia.



Seu sorriso repousa

Em minha janela e

Deixa leve perfume

De miosótis nela


Tua delicadeza é fina

Pétala de flor

Voando leve

À brisa de uma tarde

De verão.


Tua alma lilás

Recita poesias mudas

Em meu coração

E um encontro se faz


Tua ternura de menina

Me dá a mão e me

Roubas sorrisos

Me traz versos de improviso

Disfarça a minha solidão....


Salvador,02 de fevereiro de 2010