segunda-feira, 2 de março de 2009

Sossego

Renoir - Seated Bather; c. 1883- 84;



"Me diz o que é o sossego que eu te mostro alguém a fim de te acompanhar..." L.H



Chove
O tempo todo
Em minha janela


Eterno e disperso
Cheiro de terra


Liberdade com aroma
de vento


Mau intento?

Chá de folhas de laranjeira



Na poltrona
Passo a página

Tento reescrever a mesma história.



Quero mesmo é um amor
Pra vida inteira

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Einsam Abschied


Hoje era o dia. Esperado, planejado, indeciso, apenas o dia. Ela estava cansada. Da vida, das dores, de tudo. Tudo terminaria com um longo suspiro. Já estava decidido e era assim que ia ser. Andou mais rápido do que de costume e entrou correndo para casa. Bateu vigorosamente a porta de seu quarto e jogou-se na cama como quem há tempos não dorme. Ali ficou por alguns instantes quando foi surpreendida pelos gritos da mãe que adentrara o quarto sem bater, como de costume:

- Filha, você já comeu alguma coisa hoje?

Era melhor não responder. Mas a mãe insistente que era iria continuar a repetição como um velho disco riscado.

- Tô sem fome mãe....

- Menina, assim nada vai dar certo, eu já te disse, você precisa comer, precisa colaborar também, eu estou pagando a terapia, mas você só engordou apenas um quilo até agora...se continuar assim você vai morrer, é isso que você quer?

Levantou-se e deixou a mãe falando sozinha. As coisas que a mãe dizia ecoavam em sua cabeça, queria esquecer, não ouvir, mas não tinha jeito. Sentia um frio que não sabia de onde vinha...sentia na verdade que a mãe tinha razão. Ela não ia morrer, ela já estava morta.

Voltou para casa tarde e alegrou-se por um segundo com a tranqüilidade que habitava cada cômodo. Foi ao banheiro, ligou o chuveiro e ficou de pé, observando a água enquanto a banheira enchia. Tirou cada peça de roupa como num ritual. Enquanto cada peça caía, percorria o seu corpo com um olhar melancólico. Sentia nojo e repugnância ao ver seus ossos, sua pele flácida, seus joelhos, seu ventre. Tudo pendia como uma fruta murcha e apodrecida. Ela era um pedaço perdido de melancolia e podridão. Nua, observava ao espelho seus seios como pedaços de um corpo que jazia incessantemente. Não era mais necessário esperar. Sentia em sua alma a necessidade de ir embora, partir. Sentia que algo de bom lhe aguardava, queria a paz do que não se sabe. Sabia do desconhecido com uma certeza inabalável.


Deitou-se na banheira. A água morna deu ao seu corpo uma sensação agradável de aconchego. Lanhou a própria carne como quem se entrega ao sacrifício. Com a cabeça pendida para baixo, sentia o filete escorrer pelos seus punhos, percorrer todo o seu corpo e encontrar a água da banheira como um rio que encontra o mar e se fortalece com esse encontro de cores. O vermelho inundava tudo. Ela sentia-se invadida por uma paz indescritível, sentia-se cada vez mais leve, leve e leve. Estava indo embora, sem despedidas. Solitariamente.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

As outras

Picasso, Les demosielles de Avignon



A interrogação paira sobre minha cabeça

De não saber se sou esta ou se sou a outra

De não saber quem grita dentro de mim em urgência

De não saber quem chora ou quem é feliz

Sussuram em meus ouvidos

As vozes dessas várias mulheres

 

 Paira  sobre minha cabeça

A confusão de sentir o que elas sentem

Se são verdadeiras, se mentem,

Estão em mim e eu nelas numa doente simbiose

 

Procuro um espelho

Onde se reflita a imagem verdadeira,

Seja eu essa mulher inteira,

Seja real em despedaços minúsculos que compõem

O que fui um dia qualquer.

 

Essas mulheres e nenhuma,

Doce confusão de se sentir absoluta

Delírio inconsistente que perscruta

A face perdida de mim mesma

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

after ventus


São muitas as coisas para fazer, mas nada me interessa.

Nada me mobiliza e nem me comove
O sol é de rachar lá fora, mas o que eu sinto é frio.

Vento invisível soprando forte em minha cara.
Retorno do meu oposto e caio cansada ao chão.
Nada me interessa.
A não ser...


Esse gosto amargo de dor e solidão

Bruma de morte

Enevoando tudo.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Música




Um dia era a menina. Eram cambitos as pernas. Ela era tão magrinha.... A mais nova, a mais inteligente. E a mais sozinha também. Ela tinha um ursinho azul velho que a mãe num arroubo de alegria lhe deu dia desses. Guardou enquanto pode... Não é todo dia que recebia um presente. E da mãe? Pior ainda. Mas a chuva veio, as goteiras do quarto, o mofo, a poeira... Não tinha jeito, ele tinha que ir embora. Dor pesada e enorme ver o ursinho ser jogado fora. Já não era mais um ursinho, pedaço pequeno de plástico e esperança. Era um depósito inominável de coisas boas, era um símbolo. Passou. Ela sobreviveu.

Um dia ela aprendeu que existia alívio em ver as coisas que sentia em um pedaço de papel. Que afinal as aulas chatas de português serviriam para alguma coisa. E escrevia, escrevia, escrevia. Avidamente desvirginava a brancura da folha de papel com o que havia de mais seu, com o que era volátil e agora tinha uma razão de ser fixo. E a escrita virou algo precioso e só seu. Marca registrada do que agora se chamava mulher.

Um dia ela ouviu música... Fenômeno mágico, não se lembra a hora nem o dia...Uma calma vinda de não sei onde tomava conta do seu coração e dava pra esquecer uma vida não tão boa, vida diferente das histórias corriqueiras de meninas e de músicas. Vivia pegando emprestado o radinho-relógio velho do pai...Acho que nem se fabricam mais destes...Ouvia o rádio, tentava adivinhar qual seria a próxima música, num jogo só seu, até que dormia tranqüila e o pai, ao chegar, levava embora o tal radinho para o quarto dele.

Um dia o pai, galho seco de árvore, num ímpar arroubo de alegria e generosidade resolveu lhe dar o radinho. Ela nem acreditou. Foi tomada de uma alegria impar, por dentro dava saltos de alegria, por dentro pulava, sorria, era toda contentamentos. Mas por fora não sabia como se sentia isso e secamente deu ao pai um “Muito Obrigada”. O pai secamente nem respondeu, mas ficou feliz também, pois era por estes gestos imperceptíveis que os dois se encontravam. De alguma forma ele também disse “De nada”.

Um dia o radinho já não era mais suficiente... A menina cresceu e com ela a sede de ouvir outras músicas... Essas que não tocam no rádio, essas desconhecidas, famosas por serem raras, reconhecidas por um número ínfimo de pessoas. Ela ansiava por ouvi-las, ela ansiava por fazer parte desse mundo de pessoas raras e ínfimas. Mas ela não era rara. Era comum como nota velha e esbagaçada de um real. Ela era igual a todo mundo e ao mesmo tempo completamente diferente. Ela na verdade já não sabia quem era e queria mesmo era desistir de tudo isso.

Um dia o radinho quebrou, o urso morreu, o diário rasgou e a menina voltou pra dentro de si. De lá nunca mais saiu e faz passeios arriscados à porta de si mesma. De lá de dentro ela só escuta o som da música que vem daqui. Sente o cheiro de passado que ela evoca, arrisca uma saída súbita, põe só um pé pra fora, respira o ar de novidade e volta correndo pra dentro, medrosa que é. Prefere pagar o alto preço da saudade e da solidão.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Sozinha

Marc Chagall, Bride with Fan, 1911


Hoje não tem lua no céu,
Nem brisa suave,
Grilos no telhado
E almoço na varanda.


Hoje não tem olhos brilhantes,
Sorriso nos lábios,
Coração pulsante
E mãos entrelaçadas.


Hoje é absurdo.
Longa ponte entre o tudo e o nada.
Hoje é sentimento,
Tristeza e solidão.



Hoje é amargura,
Angústia, piedade,
Hoje é a saudade
Amiga, desde então.


Hoje apenas vive
Sombras e penumbra.
Só, sem ninguém que escute,
Discuta, veja ou descubra.

Que estou tão...
Inexoravelmente
Sozinha.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Coisas só nossas...



Existem coisas que são só nossas e por mais que queiram, jamais conseguirão nos tirar. Essa é a certeza plena que me faz ficar de pé e caminhar ressusreta rumo ao que me faz verdadeiramente feliz.







Menina da Lua

(Maria Rita)


Leve na lembrança ,

a singela melodia que eu fiz ...

Pra ti, oh bem amada
Princesa, olhos d'água, menina da lua


Quero te ver clara, clareando a noite tensa deste amor
O céu é teu sorriso,

No branco do teu rosto a irradiar ternura

Quero que desprendas de qualquer temor que sintas
Tens o teu escudo, teu tear
Tens na mão, querida, a semente

de uma flor que inspira um beijo ardente
Um convite para amar

Quero que desprendas de qualquer temor que sintas
Tens o teu escudo, teu tear
Tens na mão, querida, a semente...

de uma flor que inspira um beijo ardente,
Um convite para amar
Leve na lembrança,

a singela melodia que eu fiz

Pra ti, oh bem amada
Princesa, olhos d'água,


Menina... Linda...