quinta-feira, 4 de dezembro de 2008



Amor em monossílabo
Beco sem saída,
Pinga no olho
Lágrima de desesperança...

domingo, 30 de novembro de 2008

Encantamento

Juan Miró, quadro lindo que não sei o nome.





Tudo é o não-saber
Revelado por uma palavra,
Revelado por um sorriso,
Uma escuta,
Um acontecimento.


Tudo é o que não se vê
Mas se sabe, se percebe,
Se intui e transparece
Pela lente curiosa
De um encantamento.

Toda é a alegria
Que surge a cada momento,
Escondida no canto da boca,
E se estende pelo dia
E espera pacientemente a noite chegar.

Toda é a esperança,
Uma coisa á toa, bobagem passageira
De menina arteira
Que esqueceu de crescer...


Toda é a vontade,
Pequenina e persistente,
Que esse encantamento,
Sopro leve de um afeto quente,
Não se perca pelo ar...

Toda é a possibilidade
Que ele se torne
Sentimento verdadeiro,
Não importando o nome que tenha
Mas que venha e se instale,

Que alegrias sempre exale
E que chegue...

Pra ficar.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Dor de Alma


O tempo me consome incessantemente. Ora passa lento, ora rápido demais, ora não o sinto passar. Minhas mãos tentam seguir o percurso do meu pensamento. Mas ele está vazio, assim como está o meu coração. De repente me dá uma vontade inusitada de fumar. Não fumo há tanto tempo...tentativa frustrada de que a angústia se vá junto com a fumaça do cigarro, que escape pelas frestas das janelas e suma em direção ao céu. Ledo engano, vontade pueril de que, de repente, tudo fique bem. Não pensar em você é difícil, mas pensar em você dói. E eu fico no meio de um fogo cruzado onde a razão e a emoção brigam e nada se resolve.

Ainda não passou, estranho se passasse? Fica um incômodo, uma sensação de dever não cumprido, uma falha em meu caráter essencialmente racional e quadrado, em minha torpe mania de achar que tudo precisa ficar milimetricamente arrumadinho, inclusive os meus sentimentos. A desordem da vida me incomoda, a bagunça em minha mente me incomoda, me incomodam as coisas estranhas e pungentes que eu não posso controlar. Sinto-me como quem acabou de arrancar um dente. Dor de dente é dose, não pára de doer um só segundo, incomoda, angustia, oprime. Aí você resolve arrancar. Não, canal não adianta, apenas adia o problema. Vamos pôr logo fim a isso. Em meio aos apelos do dentista que diz: “Tem certeza que a senhora não quer tentar um canal?” Tenho. Quero 100% de certeza, não quero pensar na ínfima possibilidade de sofrer tudo isso novamente. E lá está você, resignada, diante de uma agulha do tamanho do mundo, onde finalmente você se anestesia. E lá se vai o dente. Sangra, estanca. Pronto. Não faz muito esforço e volta pra casa. Alívio. Acabou a dor. Acabou a angústia. Mas falta algo. Passeando com a língua pela boca, lá está o buraco. É enorme. Cadê o dente que tava aqui?

O buraco fica, o buraco não some, o dente não volta. Você está sem uma parte sua. Abre a boca enorme diante do espelho e se confronta com a falta. Já não sorri mais com o sorriso largo, sorri de meia boca, podem perceber que me falta algo. Sorri um sorriso falso, finge felicidade que não existe. Mas um dia você se acostuma com a falta. Cria estratégias pra falar, sorrir e comer sem o tal dente perdido. Afinal você tem vários né? Se não me engano, salvo os molares miseráveis que quase sempre temos que arrancar, ainda sobram pelo menos 30. O tempo passa e a vida continua. O tempo reconforta a falta. Embora a falta nunca falte. A falta só se tranforma....em saudade.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Das inutilidades

Que faço eu aqui
num mundo onde

tudo o que é mais significativo para mim
não significa nada?

Logo eu, cheia de sentires e poesia,
cara gorda de intelectual metida a besta,
pairo plena num movimento de inutilidades.

Minha poesia é (des) útil, não serve para.
Meu sentir é desnecessário, sofrível, incognoscivel e perdido.

Pairo com cara de boba a perguntar pra mim mesma:


Que diabos é que eu estou fazendo aqui?

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Palavra

Palavra abrupta,
Expulsa a ferro da goela
Palavra imunda,
Nascida de uma fecunda espera

Palavra
Sentida
E ressentida
Diluída, dissolvida
Na mágoa do acontecimento.

Palavra não-dita
Falada, escrita,
Imaginada, rascunhada
E pintada
De uma única cor.

Palavra amarela, azul e lilás
Pueril amparo,
Calma voraz...
Que não volta.

Gosto amargo de despedida e dor

Bendita e maldita palavra
Invisíveis grades, prisão de alma
Gosto suave
De angustia e acalma...

Ria
chamá-la, fitá-la, nomeá-la, saboreá-la
evita-la e contempla-la


Chama

ria de AMOR






quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Idem Sentire


Tudo no tempo
Reverbera teu encanto
Tudo o que toco
Reverbera o meu espanto
Seu cheiro repousa
Escondido pelos cantos
Da casa
Ausência de ti
Impera em mim
Como asa
Quebrada de beija-flor.
E eu, que nunca imaginei sentir
Desta maneira
Miro a dor do outro lado da sala.
E escorre densa e negra
E sobre mim se instala.
Oco de mim é tua falta.
Angústia de perder-me por ai.
Tua ausência trescala
Aroma de saudade
Reverbera a novidade
Do velho amor
De sempre.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Dor de dó

Edvard Munch , modelo perto da cadeira.



Cheiro de dor enevoando tudo,
Aspiro de vez o mundo, desejo
Mas trago e só acho
Dor de dó em doer mais fundo

E apenas o vazio se instala

Tiro o olho do buraco
O fato se anula, e dói
O ato dissimula de si
Branco, do azul separa

Um caco, um pedaço
De uma oca quimera
Ah, quem dera!

Aproveito os restos,
decomponho os fatos
Incrédula
Somando os raios de sol
Que invadem a madrugada

Com as lágrimas que despejo
Vaga lembrança
Rego o solo do desassossego,

no ensejo

Dor de doer
E mais nada.